Patriarcalismos e Paternalismos

Hoje a questão é sobretudo a de avaliar a legalidade/ilegalidade da eutanásia [e mais recentemente a de saber se existe um limite de idade para a realização da eutanásia (veja-se o caso da Bélgica, onde um menor de 18 anos com uma doença terminal pode pedir para morrer)]. Esta questão, porém, parece radicar fundamentalmente numa outra, mais antiga. Se hoje se discute se um doente pode escolher morrer, e ser medicamente assistido na morte, antes a questão era a de saber se um paciente podia ser informado e participar nas decisões médicas que afectavam o seu corpo. Na década de 1950′, nos Estados Unidos (apenas um exemplo), pacientes e famílias eram deliberadamente mantidos à margem das decisões de vida e de morte. Eram os médicos que, imbuídos de um paternalismo misericordioso, tomavam essas decisões. Consentimento informado, autonomia do paciente não existiam e só foram trazidos à discussão a partir de 1970, com o movimento bioético. A eutanásia parece poder, por isso, ser alojada na sequência de todos aqueles pushings que visavam esmagar o paternalismo médico. E aqui está uma coisa interessante, lamentavelmente ausente da discussão pública e que eu desconhecia.

[Reflexão sugerida pela leitura do artigo “The Doctor Used to Know Best” publicado na revista The Atlantic]

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Sim

A felicidade também pode ser uma escolha. E dos sete elementos para a felicidade listados aqui, ando a falhar em três ou quatro. Devia ser mais insistente no que toca à persecução dos meus objectivos; devia concentrar-me e apostar mais em fazer aquilo em que (sei que) sou boa; devia sentir-me mais agradecida por aquilo que tive, e que já alcancei, e queixar-me menos (nesta partilho culpas com o ambiente português, muito propenso às calimerices); devia ser uma amiga mais presente, sobretudo porque tenho amigos realmente bons e que se preocupam comigo. Em relação ao último item da lista – viver a vida que quero viver – não tenho observações a fazer. Nunca me preocupei muito com a opinião dos outros porque sei que, no fim, quem tem de viver com as minhas escolhas sou eu.

A minha imaginação é mais fértil do que a (narrativa d’) tua vida?

Lembro-me de ouvir a Lídia Jorge, há uns anos, dizer que a ficção é melhor do que a realidade. Discordei na altura; discordo agora também. Não acho que a minha imaginação seja mais fértil do que a minha vida; mas por vezes constato que a minha imaginação é mais fértil do que a narrativa que faço da minha vida. Porque nada há de errado com a minha realidade, ainda que possa haver algo de errado com a percepção que tenho dela.

Gosto do argumento, submeti-o a rigorosos testes, nos quais passou com distinção

Discussão interessante aqui. A certa altura alguém diz que o mundo é um sítio perigoso tanto para homens como para mulheres. O mesmo é dizer, o mundo é um lugar desafiante para todos, se queres manter-te à tona esforça-te. Pode não parecer mas estamos perante um argumento feminista. A resposta feminista às desigualdades de género passa cada vez mais por dizer que, por não existir diferença entre os sexos, ambos têm iguais direitos no acesso a cargos, privilégios, graus remuneratórios. Exemplos: 1| as mulheres podem ocupar cargos políticos não porque sejam mulheres mas porque têm igual capacidade intelectual, formação académica equiparada à dos homens, igual disponibilidade para os rigores parlamentares, etc etc; 2| na igreja católica, as mulheres podem participar e ter poder deliberativo em reuniões religiosas (ainda não podem e sentem-se tristes por isso), tais como conclaves e sínodos, não por serem mulheres mas por terem capacidade para formular e expressar opinião, por terem conhecimento da realidade sobre a qual se discute, pelo facto de as decisões saídas de tais reuniões afectarem de igual modo a sua vida.

Isto tem sentido; o seu contrário não tem. Chega a ser ofensivo dizer-se que as mulheres são necessárias no parlamento porque a sua sensibilidade pode trazer benefícios à discussão parlamentar, à formulação de políticas sociais, etc etc. [Atribuir-se tal qualidade a todo o género feminino é falacioso, todos sabemos que a sensibilidade não é exclusivo das mulheres, assim como a inclinação para o raciocínio lógico não é exclusivo dos homens]. É igualmente ofensiva a existência de quotas para mulheres [e sobre quotas nada mais direi porque me cubro de ridículo só de pensar que tal artifício existe].

Na verdade gosto tanto deste argumento — eu posso fazer porque eu sou capaz de fazer — que cheguei a aplicá-lo à minha vida, numa altura em que percebi que o mundo não anda todo à mesma velocidade e que isto de se ser razoável tem dias. É que em algumas partes do mundo ainda há homens que esperam das suas subordinadas compensação sexual em troca de benefícios laborais. Em alguns sítios ainda há homens que pensam que uma mulher só poderá manter-se no emprego (de lavar chão e pratos) se for com ele ao cinema. Sim, neste caso o uso dos tais atributos femininos é condição necessária para se poder ocupar determinado cargo. Aconteceu a mim, para desgraça do carrasco que teve de me aturar mais de dois anos, sem carícias no escuro do cinema, nem beijinhos no vão da escada. Lembras-te, carrasco, como em todos os meus gestos estava implícita a terrível verdade de que eu estava ali para ficar e de que não me podias dispensar porque eu era tão boa no que fazia que me tornei indispensável, e mandar-me embora seria visto como uma injustiça injustificável, meu desgraçado filho da put

[não preciso dizer o quanto a minha presença desmoralizou (mas não desmobilizou) as senhoras que contavam obter vantagens proporcionais ao declive do decote. sim, às vezes elas também têm culpa]